Eisner/Miller.

Terminei recentemente de ler um livro muito legal, que coleta conversas de Will Eisner e Frank Miller, quadrinhistas fantásticos. A obra já tem mais de dez anos, e digo que vale muito a pena tanto pra quem é leitor de quadrinhos como para quem é quadrinhista. Eles discutem vários aspectos interessantes do meio, desde o uso de balões nas hqs ( um trecho da conversa aparece na minha ilustração) quanto o próprio formato em que hqs são impressas. Mas vou aproveitar o livro para comentar a última polêmica envolvendo o Miller.  Continuar lendo

Demolidor -trailer da série da NetFlix

demolidor-conceptart

Saiu o trailer da série do Demolidor, um dos meus personagens favoritos da Marvel.

Parece legal, um misto da história “Demolidor- O homem sem medo” do Frank Miller e do John Romita Jr com a fase em que Brian Bendis escrevia o super-herói.

Estou bastante empolgado para ver essas séries da Marvel pela Netflix, que vão ter um tom mais urbano ainda não retratado nas adaptações da editora para outras mídias- teremos também Jessica Jones (AÊÊÊ) , Luke Cage, Punho de Ferro e “Os Defensores” (que vai juntar todos estes numa equipe, conforme a moda atual de universos compartilhados).

Noé- Preview da hq de Aronofsky e Henrichon.

Foi lançado na Bélgica “Noé”, o album de quadrinhos escrito por Darren Aronofsky, Ari Handel e desenhado por Niko Henrichon (de “os leões de Bagdá). Assim, a editora Le Lombard liberou um preview de algumas páginas  e também um trailer em video, abaixo no post. A história retrata o fim do mundo pela visão de Noé, mas conforme as imagens, é dificil dizer como vai se desenrolar a trama e até mesmo em que época ela se passa:

O plano original de Darren Aronofsky para a história era realizar um filme para o cinema, mas seu intento esbarrou nos custos. O que o levou a realizar a graphic novel para despertar o interesse de algum estúdio. Isso mantém em destaque a questão: com tantos filmes baseados em hqs surgindo, não é ruim para essa linguagem que ela possa  ser vista como algo menor quando comparado ao cinema? Ainda mais se considerarmos o recentemente lançado no Brasil Cowboys and aliens,cuja versão original dos quadrinhos é bem fraca, além de  outras obras.

Temos também nos EUA o recente desdobramento da Legendary, produtora de cinema, que acaba de lançar uma divisão voltada para a publicação de quadrinhos.

Bem, tudo depende das intenções e da competência dos envolvidos. A Legendary colocou como responsável por sua linha Bob Shreck, editor com ótimo relacionamento com grandes artistas. Embora o primeiro lançamento da nova editora tenha sido a paranóica”Holy Terror“, obra resultante do medo do “perdido” Frank Miller, os nomes dos próximos artistas envolvidos com a editora continuam a animar: Paul Pope, Matt Wagner e Simon Bisley.

O próprio Aronofsky lançou uma versão em quadrinhos de “A fonte da vida” anterior ao filme. Na ocasião, a produção havia sido cancelada, e o diretor viu a  graphic novel como uma chance de contar a história. Para isso, trabalhou em conjunto com o competente ilustrador Kent Williams, e a parceria resultou num ótimo livro. Muito além de ser um versão menor ou mesmo apenas uma “versão do diretor ” para o filme estrelado por Hugh Jackman.

Acredito que é interessante ver a mesma história contada em midias diferentes, desde que a linguagem esteja adequada as potencialidades narrativas de cada meio.

“Noé” possui uma premissa interessante, com um bom roteirista e a ótima arte de Niko Henrichon. Estou empolgado para ler a hq e para ver o filme, acreditando que os dois irão se sustentar como obras isoladas.

David Mazzucchelli.

Quando era criança, ganhei uma edição de Batman-Ano um escrita por Frank Miller, mas desenhada por esse artista. Desde então, ele é um dos meus  favoritos, e a admiração só cresce à medida que ele continua sempre se desenvolvendo. Ele não costuma lançar muitas novas histórias , mas seus trabalhos são sempre cheios de qualidade. Gosto do traço seguro, da confiança com que ele mescla linhas mais finas com linhas mais grossas para causar o maior impacto com a menor quantidade de elementos.

Vale conferir a mudança nas suas obras, partindo das mais conhecidas no Brasil para outras:

Demolidor- A queda de Murdock:

Batman Ano 1

Já há alguns anos ele se afastou do gênero de Super-heróis, e tem lançado seus trabalhos de forma mais autoral.

Cidade de Vidro

Rubber Blanket:

Bigman:

E, claro, a hq que em breve vai contribuir para me deixar ainda mais pobre. Asterios Polyp, livro prestes a ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras. A obra, tida como a maior do desenhista, conta a história de Asterios, um arquiteto famoso mas cuja a maioria dos projetos nunca foram construidos. Em crise de meia-idade, ele passa a reavaliar sua vida.

Além de Asterios Polyp, vale lembrar que a Panini relançou recentemente Demolidor-a queda de Murdock e Batman Ano 1, ambas obras imperdíveis.

O terror sagrado de Frank Miller.

Miller (de clássicos como “cavaleiro das trevas”, “ronin”, sin city e 300) pretende lançar pela Legendary sua nova hq, “Holy terror” nos EUA . A história, que coloca um ex-militar como uma espécie de super-herói que protege Nova York,  está prevista para ser lançada em setembro, próxima da época do aniversário do ataque as torres gêmeas. Entretanto,a idéia inicial era colocar o Batman para enfrentar a Al Qaeda, mas aos poucos Miller considerou que sua trama estava muito longe de ser uma história do morcego e resolveu mudar o projeto, criando um novo personagem, um tal de “Fixer”(tinha falado disso há um tempo atrás aqui  e sobre o que eu acho de super-heróis realistas e tal…)

Agora, ao invés de Batman, temos esse tal de Fixer socando um cara de turbante- e pelos desenhos que o Miller liberou, dá pra ver que ele não teve muito trabalho pra apagar o Batman e a mulher-gato das páginas que ele tinha feito, rs.miller picareta.

Enfim, a arte do velho Miller continua ótima, mas em se tratando de uma história declaradamente panfletária e opinativa, acho dificil que ela faça algo mais do que contribuir para a histeria e o medo já existentes, reforçando os preconceitos correntes.Mas quero ler para poder falar mais.

Frank Miller e Gucci

Segundo comercial de perfume dirigido por Frank Miller( o quadrinhista consagrado, mas também diretor de Spirit)  para a gucci, com Chris Evans( o Capitão América) e Evan Rachel Wood. A trilha é uma versão de Strangelove, do Depeche Mode, mas aqui executada pelo Bat for Lashes, da Natasha Khan:

E aqui a primeira versão, com a mesma música executada pelo Friendly Fire:

Depois de Spirit, por quê ainda dão câmeras nas mãos do Frank Miller? A pergunta que não quer calar…

sobre super-heróis, parte 2

Pra encerrar o assunto do post anterior, queria comentar essa notícia que vi ontem no omelete sobre a hq “Holy Terror”. Escrita por Frank Miller, a história colocaria o Batman para enfrentar a Al Qaeda.  Colocaria, porque o Miller mudou de idéia e tirou o morcego da trama, inserindo um novo personagem , “the Fixer” ( o consertador, rs). Segue o que o Miller disse:

“Ele é, na prática, um aventureiro atrás de uma missão. Ele tem treinamento nas forças especiais e quando sua cidade é atacada todas as peças se juntam, inclusive seu treinamento. Ele tem enfrentado o crime sem muita vontade, só para manter a forma. É bastante diferente do Batman no sentido de não ser uma alma torturada. É uma criatura bem mais ajustada, mesmo que atire numas 100 pessoas ao longo da história”.

E sobre tirar o Batman da história:

“Eu levei Batman até os limites e ele acabou deixando de ser Batman. O meu cara tem armas e enfrenta uma ameaça existencial. Não está só diante de um vilão pateta. Ignorar um inimigo que tem compromisso com nossa aniquilação é meio bobo. Parece-me que sair atrás do Charada parece bobo comparado ao que está acontecendo lá fora. Já levei Batman ao limite.”

Bom, essa melancolia e desconforto com o mundo, que o Miller pretende trabalhar nos quadrinhos como se tivesse inventado a roda, não é nova.  Lembrem-se que na primeira capa do Capitão América o herói já aparecia socando Adolf Hitler. Não há nada de novo em colocar um super-herói enfrentando uma ameaça do mundo real, e o autor já vem nessa toada há algum tempo. Li uma vez,  no horrível “Batman All star”um momento em que o homem morcego diz que se fosse o dono de um anel como o do Lanterna Verde ia começar a resolver problemas de “verdade” ( como a Al Qaeda, imagino)

Embora os super-heróis sempre tenham funcionado como uma válvula de escape ( e o personagem “Escapista”,já mostrado aqui adquiriu contornos metalinguísticos na minha cabeça) e em alguns momentos seja até legal colocar os supers contra uma ameaça real,   acredito que seja necessário ir devagar. Aúnica coisa que sobra dos heróis “realistas” que resolvem os problemas do mundo com soluções fáceis (sim, fáceis, porque os mesmos problemas mal cabem em pequenos retângulos de papel) é uma certa melancolia. As vezes, tingir de realismo as hqs de super-heróis, para que eles pareçam mais úteis e necessários do que sempre foram, é até mais enganador e até ofensivo do que colocar um Lanterna Verde usando um taco de sinuca feito de luz para rebater meteoros no espaço. É como ignorar que a fantasia e o absurdo original das hqs de super-heróis( como um Superman que consegue fazer o tempo voltar girando a Terra ao contrário, por exemplo) podem dizer verdades de uma forma que o mero realismo pode não assimilar.

Os tempos mudaram, e estamos em uma época em que desconstruímos nossos mitos, revelando o que “há de sujo por trás deles”, como disse Grant Morrison em entrevista,tempos atrás. Temos políticos e policias corruptos, padres pedófilos e por aí vai. Colocar super-heróis mais dramáticos e sombrios contra problemas do mundo real, é um jeito de desconstruí-los. Mas depois de 25 anos, já é hora de começar a construir alguma coisa, não é?