Interestelar- uma hq.

interestelar

Olha que legal: uma hq que serve de prólogo para “Interestelar”, ficção cientifica atualmente em cartaz, está disponível para leitura online (em Inglês). O roteiro é do diretor do longa, Christopher Nolan, e os desenhos são de um artista que gosto bastante, Sean Gordon Murphy ( que já desenhou Batman, Constantine e outros personagens bacanas).

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A Origem

Finalmente consegui tempo para duas coisas simples : ver o filme, que era um dos mais esperados por mim esse ano, depois de Tron 2, e dar minha opinião sobre ele aqui.

Expectativa

Depois do sucesso do filme “Batman- o cavaleiro das trevas” nos cinemas em 2008, todos ficaram se perguntando qual seria o próximo passo do diretor Christopher Nolan, e se ele daria conta da expectativa gerada. Ele respondeu bem: gerando mais expectativa no público. A produção começou sob sigilo absoluto, apenas com um nome, “Inception”, e com atores famosos como Leonardo Dicaprio e Marion Cottilard que se juntavam ao elenco. Depois soltaram slogans enigmáticos, como “sua mente é a cena do crime”, e quando saíram as primeiras imagens, com os quarteirões de uma cidade se dobrando em direção a Leonardo Dicaprio e Ellen Page, o público já estava empolgado.

Depois de um tempo, veio a estréia do filme e com a aceitação da crítica e do público, o diretor somou mais um sucesso no seu currículo. Muita gente disse que “A Origem” era o filme mais ambicioso de todos os tempos e um dos melhores da história, num evidente exagero e mostrando que o hype funcionou bem.

A trama

O plot, sem mistérios e riscos de spoiler: Cobb (DiCaprio) e sua equipe são especialistas em entrar nos sonhos das pessoas e roubar elementos de sua mente. É então que Saito (Ken Watanabe), de uma companhia multimilionária, os contrata para fazer o inverso: inserir na cabeça do herdeiro da companhia rival, uma idéia, feito muito mais difícil. Cobb, por motivos pessoais, aceita, e contrata a arquiteta Ariadne para criar os cenários oníricos em que a ação vai se desenrolar. A personagem, vivida por Ellen Page, tem a mesma importância para nós expectadores que a sua xará mitológica tinha para Teseu: evita que fiquemos perdidos durante as idéias e sonhos dentro de sonhos nos quais o filme nos arremessa. É pra ela que os conceitos são explicados, e quando a coisa começa a complicar é ela quem faz a pergunta para que possamos entender.

O jeito Christopher Nolan

Antes dos efeitos especiais, e dos atores famosos, é visível que Christopher Nolan é um contador de histórias muito habilidoso, que gosta de estabelecer uma estrutura para que ele possa controlar a narrativa totalmente (e ele faz isso desde que dirigiu “Amnésia”). Sabe construir a trama de maneira que faça você alternar momentos de tensão com euforia, e com o acréscimo da trilha sonora, você acaba ficando grudado na cadeira. – E isso é muito importante na carreira do diretor, conforme ele mostrou em “o grande truque” seu filme sobre a guerra de dois mágicos, que na verdade funciona quase como metalinguagem para sua obra. Também temos em Origem a idéia de ilusão, de que algo está sendo preparado, aos moldes de um truque de mágica, e quando acontece, fica aquela dúvida sobre o que realmente aconteceu, e tentamos descobrir qual o funcionamento dos mecanismos e em que momento fomos enganados. E para o efeito funcionar, exige nossa total atenção.

O filme é bom. A maneira como a história é contada funciona, re-trabalhando de forma original um tema que já apareceu em Paprika, Tio Patinhas (num desses “Disney big” que saíram recentemente pela Abril) e outras histórias. Mas não é o melhor filme de todos os tempos, como algumas pessoas disseram. Conceitos complicados sobre neurociência dos sonhos são apresentados, mas não são muito bem explorados porque a história da inserção (e o drama de Cobb) continua acontecendo enquanto isso. Em parte, isso acontece pela representação “quadradinha” do mundo dos sonhos, realista até demais. Quando sai do cinema, ao invés de ficar pensando em o quanto são próximos a realidade e o mundo dos sonhos que construímos com os elementos do nosso subconsciente, foi o “mundo real” que ficou mais realista ainda, e por isso mais distinto.

Mas essa representação foi a opção de Nolan, que tenta deixar a narrativa do filme bem “ordenada” (no sentido de “certinho”) provavelmente para que ele não fique complicado demais, estilo David Lynch,e afaste as pessoas. Além de manter o foco do espectador na trama aparentemente mais urgente, a da inserção na cabeça do milionário herdeiro vivido por Cillian Murphy. Gostei do filme, mas queria muito ver essa mesma história nas mãos de um cara tipo o Terry Gilliam.

Também é interessante perceber que as histórias dos filmes de Christopher Nolan, desde Amnésia, sempre giram em torno do mesmo tema: Temos o protagonista, o herói “noliano” que levava uma vida comum, mas em um dado momento, algo acontece e ele passa a viver segundo um trauma, obcecado por este. E a obsessão acaba movendo a trama. Foi assim em Amnésia, com o personagem vivido por Guy Pearce, Insônia (o policial de Al Pacino), Batman (Bruce Wayne, que perde os pais e fica obcecado por justiça), o grande truque (a briga entre os mágicos de Cristhian Bale e Hugh Jackman), e agora a Origem ( com o personagem de DiCaprio).

Assim, o próprio diretor parece interessado pela idéia de controle, que transparece na construção de seus personagens, nas tramas (o Coringa destruidor de “o Cavaleiro das trevas” tem como único objetivo fazer com que as pessoas percam a noção de ordem e estabilidade – por isso  mesmo sendo tão assustador) e na forma de contar suas histórias.

O fato é que o homem é um bom diretor, sabe conduzir uma história e arrecadou a maior grana com seus dois últimos trabalhos. Assim, ganhou um status de “intocável”; tudo que ele disser que quer fazer, as pessoas que curtem cinema assinam embaixo. Até a Warner, depois destes dois tremendos sucessos, entregou a produção do novo Superman, enroscada desde “O Retorno”, nas mãos dele. E quando saíram os boatos de que seu irmão mais novo e co-roteirista de seus trabalhos Jonathan Nolan pode dirigir o filme, os fãs quase que de forma unânime depositaram confiança no caçula, que nunca dirigiu filme algum- se for mesmo o escolhido, pode ser mesmo que ele arrebente, e torço pra isso. mas na minha opinião, esse status só foi alcançado nos últimos anos pela Pixar (toy story 3 foi o filme do ano pra mim) e pelo Hayao Myazaki. E, embora goste de todas as obras do diretor, umas mais, outras menos, queria ver um filme do Superman dirigido pelo J.J Abrams ( do último Star Trek e criador do Lost e Fringe). Não concordo com algumas coisas que C. Nolan diz, sobre manter Batman e Superman separados no cinema porque eles só funcionam individualmente. Um filme explorando o contraste entre os icônicos personagens é algo que me empolgaria mais do que os Vingadores, por exemplo.

E uma pequena referência para os arquitetos por aí à fora: O prédio onde se passa a grande sequência de ação no final foi visivelmente inspirado na Geisel Library, do arquiteto William Pereira. O hal de entrada do prédio abriga uma instalação de arte intitulada ler/escrever/pensar/sonhar,além de uma lenda urbana sobre um  terceiro andar (relação com o terceiro nível de sonhos do filme?) inacessível por escadas ou elevador.Inseridas na história, existem várias outras referências. Valeu pela dica, senhorita Marília D.M  ; )

Para terminar,um pequeno Spoiler:

O final tem o objetivo fazer com que repensemos o filme todo, o que aconteceu que nós deixamos de perceber -olha o truque aí- Mas aquele pião tem um peso diferente de digamos, o origami do unicórnio do final de “Blade Runner”. Aquela dobradura, de forma sutil, apresentava o final surpresa para quem realmente prestou atenção, sem tirar o brilho da história para quem não o fez. Já no caso de Origem, o pião serve mais para levantar a discussão sobre o que era real ou não, tentando levar a leituras diferentes, mas provavelmente sem que haja uma resposta final, para aumentar o hype.Como a escada de Penrose, Nolan nos leva a percorrer toda a estrutura narrativa que ele criou: os espectadores buscam detalhes:alianças, roupas, etc; para descobrir o mistério, mas acabam não chegando a lugar nenhum- e neste ponto, o filme perde em discussão: afinal, no momento em que você percebe que não vai chegar a lugar algum, continuaria subindo uma escada tão trabalhosa?.Talvez seja legal que você mesmo monte sua interpretação e siga sua vida. É um pouco como o personagem de Ethan Hawk descreve o final aberto do livro que escreveu no filme “Antes do por-do-sol”.Dependendo do tipo de pessoa que você for, vai acreditar que o que aconteceu foi isso, ou aquilo.

Pra mim, o pião parou de girar e pronto.