Quadrinhos, física e magia!

magia-fisica

texto originalmente publicado no site da Ribeirão Preto em Quadrinhos.

No ultimo texto falamos um pouco sobre como os quadrinhos são vistos. A ideia central ali era dizer que qualquer pessoa pode ler uma hq da mesma forma que vê filmes, séries , poesia ou literatura; sem precisar ser um especialista no assunto. E é verdade, mas para quem quiser, tem muito para se aprofundar com relação a essa linguagem. Por isso, pensei em falar um pouco sobre as coisas que fazem com que este seja meu meio de expressão favorito desde que me lembro.

Primeiro de tudo, tem a questão do desenho. Sempre gostei de desenhar,e de ver desenhos e ilustrações de todos os tipos. Tem algo de muito legal em um desenho, em como atinge um observador e faz com que ele construa um sentido ou uma impressão daquilo com base no seu próprio repertório de experiências. Quer dizer, um ícone gráfico é capaz de evocar algo de dentro da mente da pessoa que o observa e fazê-la pensar ou sentir? Para mim, isso é praticamente magia!

Claro que eu nem imaginava isso ao ler um gibi quando criança, era apenas enfeitiçado. E página por página, os desenhos eram colocados numa sequência que eu podia compreender e que me contavam a história. E é aí que está o meu ponto favorito das hqs, a forma como a passagem do tempo ocorria nessa sequência!

 É aqui que peço desculpas por reutilizar um texto que escrevi há algum tempo atrás para a página da RPHQ no Facebook, mas acho que vale a pena retomar o depoimento:

Sempre tive uma certa dificuldade em ficar focado em algo por muito tempo, no tocante às histórias que me eram transmitidas. Era muito fácil abandonar aquela que não me prendesse o interesse logo de cara. Embora sempre tenha gostado de filmes, animação e literatura, me sentia condicionado à um ritmo e a visão do diretor, ou do escritor. Assim, se eu perdesse o foco vendo um filme no cinema e olhasse para o outro lado, teria perdido aquele momento para sempre.
Num livro, leio rigorosamente palavra por palavra, fazendo força pra conter a vontade de pular para o parágrafo de baixo. Se isso acontecesse, teria que voltar até onde eu realmente estava, e seria necessário retomar o pique da leitura.

Mas entre uma imagem e outra, entre um quadrinho e outro ou entre a virada de uma página à outra, existe a possibilidade de liberdade. Se o leitor se solta, a continuação da história continua ali, no quadrinho seguinte, eternizada. Basta voltar.

Lendo uma hq, você pode se perder e ir para onde quiser. Olhar o último quadrinho da revista, ou qualquer um da página do meio, e conhecer toda a história por partes, sem precisar ler o todo. Sem LER realmente a história. Afinal, ela está ali, sendo necessário apenas virar algumas páginas. Só é possível evitar isso se os autores daquele trabalho tiverem um domínio bem preciso do ritmo e da relação entre o leitor e a trama, guiando-o através desta utilizando recursos como quantidade e tamanho dos quadrinhos, enquadramentos, grau de detalhamento dos desenhos…

Falando dessa forma fica complicado de entender… Mas um dos maiores quadrinhistas da história, Will Eisner, em seu livro teórico mais famoso*, estabeleceu uma relação entre os quadrinhos e a Física que ao contrário do que pode parecer simplifica o que estou tentando dizer:

 “Albert Einstein, na sua Teoria Especial( Relatividade) diz que o tempo não é absoluto, mas relativo à posição do observador. Em essência, o quadrinho faz desse postulado uma realidade. O ato de enquadrar ou emoldurar a ação não só define seu perímetro, mas estabelece a posição do leitor em relação a cena e indica a duração do tempo.”

Basicamente, o que é ocorre é que os artistas constroem a obra de maneira que o leitor sinta inconscientemente  que vai aproveitar muito melhor aquela história permitindo-se ser guiado.

O que eu entendo disso? Bem, sugerir ao leitor que passe por um quadrinho de forma mais rápida ou mais lenta, conforme o objetivo que a narrativa pretende alcançar, é uma das maiores dificuldades para um quadrinhista. Nos convencer a permanecer na trilha estabelecida, mesmo que possamos sair dela quando quisermos é um desafio.

 E quando eles conseguem, e fazem páginas passar à mil pela mente de alguém, ou então o mantém preso pelo tempo que quiserem em um único quadrinho… Cara, de novo… Magia!

 Sim, tem muito mais para se aprofundar no mundo dos quadrinhos.

                           ____________________________________________

 * O livro em questão é o ” Quadrinhos e Arte sequencial”. Vale muito à pena ler!

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